O momento mais feliz da minha vida, acho que já contei, aconteceu em um apartamento minúsculo em Brasília. Estávamos, eu e uma amiga, no chão e recostados em um sofá; então outra amiga - completamente bêbada - chegou rebolando com uma caixinha de bombons; e conforme ela rebolava - de um jeito bobo e engraçado - os papeizinhos brancos caiam como neve em nossas cabeças, e logo ela também caiu - não exatamente como neve - e rimos até tudo ficar embaçado - eu também estava completamente bêbado - mas antes de apagar lembro de ter reconhecido o que estava acontecendo e pensar "este é o momento mais feliz da minha vida".
O momento mais feliz da minha vida chama-se Lamarão: bebemos um champagne caro e em copos baratos de requeijão, e depois havia uma mesa enorme, e nunca vi tantos amigos reunidos, e besouros caiam em nossos copos, e fizemos danças ridículas em uma portinhola - e não sei como não me afoguei naquela piscina gelada. No dia seguinte eu estava sentado em frente a uma janela e muito longe um cavalo corria. A linda Beatriz estava sentada em uma poltrona antiga com seus cabelos cor de trigo soltos. Então eu olhei para ela até ela olhar para mim e sorrir.
O momento mais feliz da minha vida foi a escola de aviação. Meus colegas riam porque eu era mimado, porque eu não sabia pegar ônibus, porque eu estava com bolhas nos pés, porque meu cabelo era impecável, porque eu quase chorava depois das provas e dizia "eu vou me ¨%$#@ e tirar 3". E então eu tirava 10.
Em meados de 1990, eu tinha 5 anos e estava na casa de minha avó materna em Teresópolis no interior do Rio de Janeiro. Embora as pessoas contem que eu adorava acordar cedo e correr até a janela para dizer "Bom dia, montanha!" à noite, eu enchia o saco para ver a Lua "mas não da janela". Numa noite, uma tia - então jovem e de camisola branca - me acordou, pediu para eu não fazer barulho, e de mãos dadas me levou para o quintal - que na minha cabeça é gigantesco, com um gramado imenso e muros cobertos de Hera. Ela apontou para o céu e lá estava a Lua: fora da janela. Aquele foi o momento mais feliz da minha vida.
O momento mais feliz da minha vida foi um dia, uma tarde, que desci com a minha cachorrinha e andamos pela garagem chata do prédio. Andávamos em círculos e não havia nada interessante, mas a correnteza do vento batia e jogava o pêlo dela todo para trás.
O momento mais feliz da minha vida foi jogar Super Nintendo com o meu irmão do meio enquanto meu pai traduzia com um inglês péssimo coisas que não faziam sentido e não ajudavam em nada.
O momento mais feliz da minha vida foi jogar Xbox com meu irmão do meio - enquanto mandávamos nosso irmão mais novo calar a boca.
O momento mais feliz da minha vida foi na praia: Uma vez rolamos na areia. Outra vez entramos juntos no mar.
O momento mais feliz da minha vida foi um Reveillon em um apartamento.
O momento mais feliz da minha vida foi tomar café com uma certa amiga em uma certa cozinha.
O momento mais feliz da minha vida é imaginar dois amigos que vivem falando mal de um bar - lugar que eu passei os últimos 3 anos falando mal - sentados neste mesmo bar comigo - falando mal dele.
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Uma vez - sem mais nem menos - um tio meu, com quem não conversava muito, me mandou um e-mail contando o momento mais feliz da minha vida. Nas palavras dele:
"Anos atrás, muitos mesmo, eu passeava por um parque como tantos outros e como tanto gosto de fazer. Parece que a caminhada vai recarregando as baterias de energia e paz. Quando vi uma jovem mãe com seu pequenino filho.
A mãe eu conhecia há muito tempo. Devia fazer uns dois anos que não a via. O filho devia estar com uns 3 anos no máximo.
Naquela manhã assisti uma cena incrível, como nunca havia visto. Os dois brincavam, como uma brincadeira de gira-gira, sem o gira-gira. Mãe e filho riam muito, muito mesmo. Mas não era só uma brincadeira materna, era muito mais era como se houvesse uma cumplicidade entre eles, aliás muito além que cumplicidade. Não havia necessidade de demonstrar esta ligação entre mãe e filho, pois a mãe estava sozinha, então com certeza não fazia isso para se mostrar para alguém. A alegria e o amor eram contagiantes.
Naquele dia eu entendi com perfeição a relação entre mãe e filho. Engraçado, eu não era tão novo, mas aprendi somente naquele dia este amor.
Fiquei por alguns instantes observando aquele momento. Talvez tenha sido o único no mundo que pode ver aquela situação tão linda, tão pura e rara.
Tive intenção de ir em direção deles. Mas mudei de idéia quando percebi que estaria interrompendo um momento tão especial entre os dois.
Foi umas das cenas mais lindas e importantes da minha vida. Nunca mais vou esquecer. Ah, só pra constar: o menininho era você."
Eu não lembro, mas foi o momento mais feliz da minha vida.





