24.5.13

O momento mais feliz da minha vida



O momento mais feliz da minha vida, acho que já contei, aconteceu em um apartamento minúsculo em Brasília. Estávamos, eu e uma amiga, no chão e recostados em um sofá; então outra amiga - completamente bêbada - chegou rebolando com uma caixinha de bombons; e conforme ela rebolava - de um jeito bobo e engraçado -  os papeizinhos brancos caiam como neve em nossas cabeças, e logo ela também caiu - não exatamente como neve - e rimos até tudo ficar embaçado - eu também estava completamente bêbado -  mas antes de apagar lembro de  ter  reconhecido o que estava acontecendo e pensar "este é o momento mais feliz da minha vida".

O momento mais feliz da minha vida chama-se Lamarão: bebemos um champagne caro e em copos baratos de requeijão, e depois havia uma mesa enorme, e nunca vi tantos amigos reunidos, e besouros caiam em nossos copos, e fizemos danças ridículas em uma portinhola - e não sei como não me afoguei naquela piscina gelada. No dia seguinte eu estava sentado em frente a uma janela e muito longe um cavalo corria. A linda Beatriz estava sentada em uma poltrona antiga com seus cabelos cor de trigo soltos. Então eu olhei para ela até ela olhar para mim e sorrir.

O momento mais feliz da minha vida foi a escola de aviação. Meus colegas riam porque eu era mimado, porque eu não sabia pegar ônibus, porque eu estava com bolhas nos pés, porque meu cabelo era impecável, porque eu quase chorava depois das provas e dizia "eu vou me ¨%$#@ e tirar 3". E então eu tirava 10.

Em meados de 1990, eu tinha 5 anos e estava na casa de minha avó materna em Teresópolis no interior do Rio de Janeiro. Embora as pessoas contem que eu adorava acordar cedo e correr até a janela para dizer  "Bom dia, montanha!" à noite, eu enchia o saco para ver a Lua "mas não da janela". Numa noite, uma tia - então jovem e de camisola branca -  me acordou, pediu para eu não fazer barulho, e de mãos dadas me levou para o quintal - que na minha cabeça é gigantesco, com um gramado imenso e muros cobertos de Hera. Ela apontou para o céu e lá estava a Lua:  fora da janela. Aquele foi o momento mais feliz da minha vida.

O momento mais feliz da minha vida foi um dia, uma tarde, que desci com a minha cachorrinha e andamos pela garagem chata do prédio. Andávamos em círculos e não havia nada interessante, mas a correnteza do vento batia e jogava o pêlo dela todo para trás.

O momento mais feliz da minha vida foi jogar Super Nintendo com o meu irmão do meio enquanto meu pai traduzia com um inglês péssimo coisas que não faziam sentido e não ajudavam em nada.

O momento mais feliz da minha vida foi jogar Xbox com meu irmão do meio - enquanto mandávamos nosso irmão mais novo calar a boca.

O momento mais feliz da minha vida foi na praia:  Uma vez rolamos na areia. Outra vez entramos juntos no mar.

O momento mais feliz da minha vida foi um Reveillon em um apartamento.

O momento mais feliz da minha vida foi tomar café com uma certa amiga em uma certa cozinha.

O momento mais feliz da minha vida é imaginar dois amigos que vivem falando mal de um bar - lugar que eu passei os últimos 3 anos falando mal - sentados neste mesmo bar comigo -  falando mal dele.

 ***

Uma vez - sem mais nem menos  - um tio meu, com quem não conversava muito, me mandou um e-mail contando o momento mais feliz da minha vida. Nas palavras dele:

"Anos atrás, muitos mesmo, eu passeava por um parque como tantos outros e como tanto gosto de fazer. Parece que a caminhada vai recarregando as baterias de energia e paz. Quando vi uma jovem mãe com seu pequenino filho.
A mãe eu conhecia há muito tempo. Devia fazer uns dois anos que não a via. O filho devia estar com uns 3 anos no máximo.
Naquela manhã assisti uma cena incrível, como nunca havia visto. Os dois brincavam, como uma brincadeira de gira-gira, sem o gira-gira. Mãe e filho riam muito, muito mesmo. Mas não era só uma brincadeira materna, era muito mais era como se houvesse uma cumplicidade entre eles, aliás muito além que cumplicidade. Não havia necessidade de demonstrar esta ligação entre mãe e filho, pois a mãe estava sozinha, então com certeza não fazia isso para se mostrar para alguém. A alegria e o amor eram contagiantes.
Naquele dia eu entendi com perfeição a relação entre mãe e filho. Engraçado, eu não era tão novo, mas aprendi somente naquele dia este amor.
Fiquei por alguns instantes observando aquele momento. Talvez tenha sido o único no mundo que pode ver aquela situação tão linda, tão pura e rara.
Tive intenção de ir em direção deles. Mas mudei de idéia quando percebi que estaria interrompendo um momento tão especial entre os dois.
Foi umas das cenas mais lindas e importantes da minha vida. Nunca mais vou esquecer.  Ah, só pra constar: o menininho era você."


Eu não lembro, mas foi o momento mais feliz da minha vida.

16.3.13

Lugares para visitar


Sempre fico emocionado quando recebo um e-mail perguntando “onde você está?” “o que tem feito”?

Eu ando um pouco longe daqui, é verdade, mas foi porque estive/estou em 7 muito bons lugares (onde podemos, quem sabe, muito bem nos encontrar).

1 - Rio de Janeiro


Continua lindo e se você estiver perto, vale a pena uma passadinha, assim por nada, 2 dias num albergue (como o “Crabs”, 60 reais a diária, tranquilo, mas sem luxo) só pra aproveitar Ipanema – e talvez um pulo na tal Pedra do Arpoador, para uma ou duas fotos com câmeras de plástico, e umas bijuterias pra deixar todo mundo feliz em casa. Não é muito, e escrevendo parece menos ainda, mas existe alguma coisa naquela cidade, nos turistas vestindo uma camisa “não muito suja” com uma bermuda “não muito molhada”, na loucura  da diversidade de pessoas na praia (casais de tiozões gays ao lado de mães com filhos pentelhos) e definitivamente há algo naquele sol infernal que é absolutamente...mágico. 

Ps - Mas evite o tal passeio de “pedalinho” na lagoa.

Ps2-  Depois não diga que não avisei.


2- Correio

Lugar que merece muitas visitas pelo óbvio: significa mandar e receber cartas – jamais em extinção ao que depender de mim. E outra: quem manda e recebe cartas, tem sempre um nome, um amor, um amigo para carregar – que sorte – dobrado no bolso, ou uma risada reserva – num dia meio chato ou insuportavelmente quente - no fundo da gaveta.

3- Gavetas (aliás)

Se forem as da casa da sua avó, melhor ainda, você nunca sabe o que pode encontrar:  eu encontrei essa foto da minha mãe - e descobri que ela, aos 26 anos, era a Brigitte Bardot 



4- Entrevistas de emprego enlouquecedoras

São enlouquecedoras; mas sempre se faz amizades – na que eu fui hoje, conheci uma árabe, uma coreana, e uma louca que mora em “Estiva Gerbis” - só o nome já garantiu diversão para a tarde inteira. Mas amei conhecer a garota libanesa, de olhos marcantes e com uma história incrível – como normalmente são as histórias dessas mulheres, sempre pioneiras, sempre quebrando regras e buscando sua liberdade.

4- tenda de comida libanesa na feira ao lado da Igreja de Moema (SP)

Ainda não fui, mas a mãe da menina libanesa vende todo o tipo de comida em uma tenda, e eu não vejo a hora de estar lá, mas já estou em pensamento.

5- Paulo Leminski - “Toda Poesia”


“primavera de problemas
a luz das flores grandes
assombra as flores pequenas”

(nada mais a declarar, estou morando neste trecho.)


6- Escola de Aviação


(sim, essas moças existem e eu estudo com elas)

É uma loucura, um babado, uma hipóxia, um disbarismo.

Vale a pena descobrir o significado dessas palavras, vale a pena perder a orientação espacial, vale a pena a rotina do uniforme e cabelo arrumadinho, só pra conhecer tantos lugares - em forma de pessoas.

7- www.meninospodem.blogspot.com

Uma visita, de vez em quando.


: )

31.1.13

Dizeres sobre a Mágoa.


São Paulo, 17:37

A mágoa é tóxica, um tipo de petróleo, é quase pegajosa. Você está bem e então uma palavra, um nome, e ela cai como melaço na sua cabeça e sua pele lentamente absorve o líquido, e o líquido desenterra as outras palavras - suas - que você guardou sobre outras palavras - dele - que foram muito cruéis e o assunto não tem nada a ver com o gatilho que originou o retorno desta avalanche. Daí você precisa ficar atento porque se você é ríspido e o outro devolver o coice você certamente irá quebrar em milhões de gotinhas de azeite escuro em um copo de vinagre.

Você pode ser gentil - normal, lúcido.

Escrever algo equilibrado, bem legal, espirituoso na medida, dizer o que você diria a um amigo, (você, por exemplo); mas tomando o cuidado de fechar os ouvidos para o conteúdo excessivamente bem humorado do retorno.

Então, depois de uma, duas, três horas, você está na cozinha, no fim da tarde, entre as coisas mais legais que já ouviu dele ("você combina inteligência, sensibilidade e beleza") e a mais terrível ("se nesses anos todos a sua vida não andou não é problema meu") e então mais uma coisa boa, uma coisa terrível, e mais uma vez e, enfim, você para: detecta o veneno e pensa: "dias atrás eu estava feliz combinando de sair com um amigo, dias atrás eu estava feliz em São Paulo".

COMO UM SOL FRIO, mas iluminado,

é este o momento de esquecer todos os planos de novos discursos simplórios e humilhados "se disser que está namorando, eu digo que infelizmente não poderei fazer uma visita", "uma carta sobre o porquê não poderei cumprir minha promessa de datilografar todos os poemas do livro do Bukowski", "um porque eu nunca mais porque qualquer coisa".

Você esquece tudo isso. Entende que nada é necessário, entende que infelizmente, tudo, seria, é, pouco relevante.

Você pode respirar.

Escrever para alguém que goste de ler suas palavras.

Você pode calçar um tênis confortável. Andar.

Você pode fazer muitas coisas, o que você quiser; Mas se pensar, antes de fazer algo muito ruim,

Lembre-se que você também pode,

Tirar uma foto,
a melhor foto,
de um pássaro,
de uma bundinha,
do céu,
do mar - que saudade do mar
do que tiver,
de você,
de alguém,
de quem não esperava reconhecimento algum,

De uma flor bonita.



30.12.12

1- 2- 1- 2


DOIS MESES DEPOIS.

Há dois motivos para tamanha demora:


1

Encontrei num quarto de entulhos uma Underwood 298 (sim estou falando sobre máquinas de escrever) cheia de ferros e com uma letra robusta e bem marcada. Gostei tanto que comprei uma portátil, a minha Dora.

Simplesmente adorei a ideia de datilografar textos em uma máquina, e isso é o tipo de coisa que ou você adora ou acha muito estúpido. Palavras de quem adora a Dora: Há algo muito especial em trazer as palavras, os pensamentos, para o mundo físico. O barulho, e ver as letrinhas aparecendo no papel – que você pode, e deve, dobrar com cuidado e guardar muito bem guardado (ou talvez você simplesmente faça uma bola e atire no lixo, também vale, mas sabendo que tudo aquilo irá se perder).

E então você pode datilografar o seu poema favorito num pedaço de papel seda ou colorido ou até num tecido, mandar para uma amiga e descobrir que ela adora escrever cartas, assim no punho.


2

Esse processo de troca de cartas e de folhas de papel dentro de gavetas nos leva ao segundo motivo da minha demora para escrever aqui: precisava estar sozinho em São Paulo para ter o que dizer sobre estar sozinho em São Paulo.

São Paulo. “Um lugar onde as distâncias são muito grandes, o tempo muito pequeno, e se você não tomar cuidado fica o dia inteiro sem abrir a boca”. Foi assim que resumi a cidade para um amigo – num momento dramático.

Porque São Paulo também não é bem isso . Bom, na verdade é, mas o que quero dizer é que... é assim: Daí o seu dia está péssimo, as distâncias são enormes, e não há tempo para nada e você não falou com ninguém o dia inteiro (falar, leia-se algo além de “bom dia” ou “hunrum”). Daí você se sentiu a última, a última das últimas das criaturas porque fez o sinal para o ônibus parar e ele não parou, e daí você esta andando numa calçada ridiculamente estreita, vestindo um terno horrivelmente escuro e com sapatos feios que machucam os seus pés e tudo isso debaixo de um sol maluco. Daí você decide que se atirar na frente do próximo carro  é o próximo passo, e é daí que dobrando a esquina você descobre uma Saraiva gigante com um Starbucks. Salvo. Feliz.

É um sentimento misto.

Estar só, ou um pouco mais só, mas sobretudo num lugar – ou num estado mental – absolutamente diferente, é descobrir exatamente que pedaço de você é de você e que, ou quais, pedaços de você eram  pedaços dos outros que você achava que eram seus. E é também tomar total responsabilidade pelos erros e acertos: acabar dizendo “não” para uma situação perigosa, mas ainda atender uma ligação de quem não merece.

Seja como for, sem amigos grudados ao seu lado – será que estavam grudados ou não estavam grudados há muito tempo e a diferença é que agora você quem decidiu mudar? Mas, continuando: longe, verdadeiramente longe de amigos, e sem as asas dos seus pais para deixar tudo o mais confortável ou seguro, há todo um novo significado em olhar uma foto, escutar uma música, ir a uma balada, conversar com um estranho. Escrever uma carta.

Eu ainda não acertei 100% a dinâmica e olhando agora – as letrinhas na tela do computador – eu entendo que não preciso ficar tempo tempo em silêncio, só porque estou mais sozinho.

Comecei este relato com dois motivos, vou terminar com duas atividades:


1

Nancy Sinatra,  "Some Velvet Morning".  (Comprei um livro estilos esses “1001 de coisas para fazer antes de morrer”)

Tudo se resume aos 2:21 porque há ali tudo de bom na vida, leia-se: collant branco alien + rochas+ mar + movimentos autistas + um refrão encantando. Kate Moss regravou – e eu achava legal – mas quando escutei a original simplesmente entendi que há muito 2000 pela frente até se chegar a magia dos anos 60.


2

Feliz 2013. Para você, que vai estar ao lado de todo mundo, para você, que vai estar sozinho, e para mim, sempre muito bem acompanhado – ao lado de Dora.




PS - E para quem perguntou, Magra e eu estamos ótimos, ela esteve em Frankfurt, estará em Florianópolis num festival "psicodélico", num momento de descontrole comprou uma Hermès no valor de um carro, e logo irá me visitar.


PS2- Ela está numa vibe naturalista. Sem maiores detalhes sobre isso.


28.10.12

Um beijo, SP.


E então eu me mudei para São Paulo.

E andei de ônibus e metrô e a pé e tudo o que eu escrevo se torna obsoleto  porque  parece que vivi 20 anos e cada dia que passo longe dos meus pais entendo um pouco mais sobre eles e sobre mim. São sentimentos bons e outros nem tanto (bomba: abri minha primeira lata de atum e com um abridor! ) e se vale meu conselho, aconselho respirar fundo e, sim, mudar. Abrir latas, montar araras de roupas e aprender a mexer com ferramentas.

É claro que não é fácil. Mas lá na frente a vida cobra um preço muito alto - de todo mundo - e é preciso ter dentro do bolso: estrutura, grana, e muita cabeça para administrar lições que virão lá na frente. E assim- aos 27 anos - determinei que  apesar da insistência dos porteiros de baladas de que sou um menino, é hora de ser, de fato, um adulto. (Ok, nem eu acreditei nessa balela, mas enfim, um pouco mais adulto.)

Mas por incrível que pareça:  Essa coisa de autonomia não tem apenas a ver com cozinhar um ovo (5 minutos, nunca 3) ou  andar pelas ruas sem fazer cara de alvo fácil para psicopatas (ainda não tenho dicas), tampouco com o meu terno e gravata separados para, amanhã, segunda-feira. Não. Positivamente ser adulto é mais:  É andar pela Augusta 23:00 da noite e seguir meio sem rumo, meio tropeçando em um decline da calçada - como algumas prostitutas (será?) ali do lado -  e reconhecer um amigo no meio de tantas cabeças tatuadas, correr pela faixa antes que o sinal abra, e estar livre, livre para morrer, para viver, para alguém se aproximar, não dizer nada, tocar na sua mão e te dar um beijo. Assim, sem nomes, sem sentido. Estou me perdendo, mas acabei de reviver a cena.

Ah... obrigado pela recepção São Paulo,

Seja bem vinda em mim.

3.10.12


21.9.12

Sobre Amores-Amigos


Nota:  O texto a seguir fala sobre "ele", mas um amor-amigo pode, naturalmente, ser "ela".


Sobre amores-amigos.


Sempre achei o máximo essa coisa de amigos que são um pouco amantes. Me refiro aqui não a "amizade colorida" — dessas tranquilas e leves —, falo dessas histórias típicas de biografias  de escritores com amores-amigos que seguem por toda vida num bolo de sentimentos fieis e doloridos, num observar o outro a distância; no ser confidente de tudo e sobretudo daquilo que não se quer ouvir.

Digo que sempre achei o máximo porque não possuía a consciência de que isso acontecia em minha vida, e agora que tenho esta consciência, sei que é uma situação absolutamente diabólica.

Sim, é muito bom ter gente em nossa vida que não é só gente, mas que é também "um mundo". (Queria explicar bem isso, mas é apenas isso, tem gente que é um mundo, e é maravilhoso, e é uma viagem e uma maionese.)

O problema de toda essa maravilha singular é que esse tipo de relação é também um beco sem saída: que  pesadelo é não conseguir odiar. Que horror é rir no meio do choro e amar no meio do ódio porque seu/sua X-amigo(a)-amor é um poço de autodestruição, promiscuidade e sobretudo não te leva a sério como um amor-amor, apenas como um amor-amigo.

(Lembrança: Você respondendo — muito alto — à voz da mulher do metrô "Não me dê ordens, eu tenho bombas!!" Como eu ri.)

Que prisão: odiar, ler um texto, amar. Sofrer, ver uma careta, rir. (Morrer com essa sua pe-ga-ção-re-pul-si-va com gente burra e horrorosa ou inteligente e linda. Não sei oque é pior, o que é pior?  É  tudo pior, é medonho.)

Então resta chorar de madrugada e escrever mais um e-mail cheio de letras trocadas e engolir tudo porque não há tempo e logo haverá uma despedida e é preciso assistir pelo menos mais 3 filmes dos 30 que vocês prometeram assistir juntos. Os encontros são raros — as distâncias do Brasil —, o beijo de encaixe perfeito é tão bom, e escutar "você não mudou nada" enquanto o filme rola  na TV sem ninguém assistir é...nem sei.

E então o momento passa. Resta... o que? Afundar tudo em humor, todo o humor do mundo necessário para esconder tudo aquilo que não é mais permitido dizer. (Se eu disser você vai revirar os olhos sem paciência e imitar a Glenn Close no fim de "Ligações Perigosas" — e eu vou  rir mais uma vez — e isso é covarde.)

Ter um amor-amigo é um trabalho constante de auto-convencimento de que "vocês seriam um desastre juntos." E é mais fácil pensar assim. É mais fácil rir do que chorar, desdenhar do que comprar, e infinitamente mais cômodo achar tudo muito patético do que encarar a perda, o fim do (meu) mundo  — me veio a mente agora, quando a gente é criança e cai com a bunda no chão e dói pra porra, e todo mundo ri e você — morrendo de vontade de chorar — começa a rir também.

Simplesmente, é como parir liquidificadores (sobre a cidade, quando a noite contrair) entender que, seja como for, essas pessoas, esses amores-amigos, são impossíveis de se excluir, esquecer, analisar; e que a dor — e a vontade de arrancar os cabelos e rasgar a própria cara — ao  presenciar um possível casamento, uma paquera de 19 anos, uma doença, um corte no dedo, um beijinho suspeito no rosto, não vai poder ser dividida com ninguém a não ser ele, o próprio, que no meio do seu chilique vai mandar você calar a boca e segurar as suas mãos. E há uma foto, uma foto daquelas....daquelas que — ódio — você irá guardar para sempre no coração...